Ser Make-up Artist

As novas turmas de 2015 estão quase quase a arrancar e tenho assistido a um interesse enorme à volta da profissão de make-up artist. É um privilégio gigante ter a oportunidade de ser a formadora responsável por alguns dos futuros profissionais da área. Além de um privilégio, é uma enorme responsabilidade.

Working

Decidi escrever este artigo onde teço algumas considerações relativas à profissão, que julgo fundamental serem tidas em conta por todos aqueles que se querem iniciar nesta atividade.

É sem dúvida uma profissão de futuro, não só porque a oferta de profissionais em Portugal ainda é escassa como o serviço em si se tem revelado cada vez mais fundamental nos mais diversos segmentos.

Como muitos sabem, sou jurista de formação académica. Dediquei-me ao Direito vários anos, não só profissionalmente como academicamente. Trabalhei em várias áreas e empresas, ao mesmo tempo que concluí o mestrado e duas pós graduações. Tive sempre muita sorte já que nunca estive desempregada. A minha realidade é a de quem abdicou de um emprego estável e bem remunerado para poder dedicar-se à make-up artistry a tempo inteiro. Esta profissão não me surgiu como consequência da falta de “melhores opções” ou da existência de “desemprego forçado”.

Ser maquilhadora profissional, ter o meu Atelier, formar pessoas na área, dedicar-me à beleza, à moda, às noivas que em mim confiam o seu rosto no dia mais importante das suas vidas, entre tantas outras coisas, trouxe-me uma realização profissional que nunca pensei atingir. Quem me conhece há anos sabe que nunca fui inteiramente feliz nos trabalhos anteriores que tive. Sempre senti que me faltava algo e sempre achei que nunca me iria sentir plenamente realizada na parte profissional da minha vida. Não poderia estar mais enganada.

Não me imagino a fazer nada mais que não esteja relacionado com a maquilhagem artística. É assim que sou feliz e é esta profissão que me faz feliz. No entanto, há várias circunstâncias a ter em conta antes de, como eu, mergulharem nesta área.

É fundamental perguntarem-se se têm aquilo que é preciso para serem os responsáveis pelo vosso negócio. Uma atitude comercial e empreendedora é fundamental. Ser responsável por um espaço que presta serviços (sejam eles quais forem) é em última análise ser responsável por gerir um negócio. E as implicações de gerir um negócio por conta própria são muitas. Quem não consegue ver-se sem um ordenado fixo, preocupações ou horário de trabalho fixo não deve sequer ponderar enveredar por esta via: não existem ordenados fixos, o dia a dia é recheado de preocupações decorrentes da gestão do negócio e não há horário laboral. Maioria do trabalho, durante o Verão, fixa-se nos fins de semana. Começa de madrugada e termina tarde. Para um make-up artist freelancer não existem os sábados nem domingos “típicos”.

Têm que estar sempre dispostos a aprender e a investir na aprendizagem. Por muita experiência que já tenha um profissional nesta área, se decidir parar a sua formação, está ao mesmo tempo a comprometer a sua carreira. O mundo da beleza e dos cosméticos não pára. Existem sempre novas técnicas e novos produtos a conhecer.

Terão igualmente que investir sempre em material novo. É fundamental terem um kit abrangente e com produtos profissionais, raramente acessíveis.

Terão que lidar com pessoas que não levam a sério a profissão. Infelizmente em Portugal, é uma profissão “de dois bicos”. Ou existem pessoas absolutamente fascinadas pelo que fazemos, que irão sempre respeitar e em alguns casos admirar, ou existem pessoas que acham esta profissão “fácil”, “superficial”, típica de quem vive “num mundo cor de rosa”. Quem não nutre tanto respeito pela profissão (derivado de absoluto desconhecimento e total preconceito) geralmente inferioriza intelectualmente o profissional por detrás desta área. Imaginem no meu caso, que venho de uma área radicalmente diferente, recheada de altos “intelectuais da pesada”, os preconceitos mentais aos quais fui sujeita. Solução? Não existe. É bom demais fazermos aquilo que gostamos por isso acabamos por desvalorizar em absoluto.

No início é fundamental aceitarem trabalhos que não são remunerados. Por vezes as contrapartidas serão bem melhores do que se vos pagassem um valor fixo. Qualquer profissional de uma área artística tem que começar por algum lado e é muito natural que, não existindo portefólio, ninguém contrate os vossos serviços. Nada melhor do que fazer uns trabalhos aqui e ali, reunir fotografias boas e ir conhecendo pessoas na área. As coisas podem demorar um pouquinho a arrancar mas arrancam.

É uma profissão em que se lida sempre com pessoas. Devem perguntar-se se gostam de conhecer e contactar com pessoas diferentes. A disponibilidade para elas terá que ser total e é muito importante terem a segurança suficiente para gostarem e defenderem o vosso trabalho mas igualmente a abertura e humildade para tentarem entender as necessidades do outro.

Será sempre muito importante estarem atentos a tendências, sem prescindirem, no entanto, da vossa assinatura como artistas. Este é provavelmente um dos pontos mais difíceis de conseguir. Se não gostam de uma maquilhagem à la Kardashian porquê passar a executá-la, apesar de estar na moda? No entanto, têm que dominar as técnicas a ela subjacentes.

Não é fácil. Nada. Mas julgo que começar seja que negócio for nunca é fácil. É preciso persistência, segurança, apoio (eu sempre tive e tenho o total apoio dos meus e isso foi e é determinante), convicção, força de vontade e, sobretudo, uma paixão avassaladora por esta área.

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